Quarta-feira, Junho 11

A TV que ainda não chegou...

Viver num País sem memória realmente é uma festa. Mas só comemora quem tem grana, lógico. Prova disso é a chegada da TV digital no Brasil. Você sabia que TV digital já foi discurso de inclusão digital?

Pois é, no ano de 2003, quando escrevi a reportagem Imagem Congelada era justamente essa a questão que os políticos traziam à tona no mercado. Três anos depois ficou claro que o nome do jogo era outro: Jornal, futebol e novela das oito entram no celular com a TV digital e O jogo de interesses da Tv digital.

Ambas reportagens colocavam as toda-poderosas TVs frente a frente com as toda-poderosas Telecom. E a tal política de inclusão digital ficou para 2016. Até porque é bom lembrar que a escolha do padrão que influenciaria no custo dos conversores foi clara: Lula preferiu o padrão japonês, considerado mais caro para o bolso dos brasileiros. Afinal, o que realmente tem importância aqui, no Brasil, é a imagem. Que tal um Cinema em Casa por R$ 6 mil?

Esse é o valor dos aparelhos de plasma com LCD que trazem a TV Digital do Brasil assim como ela foi prevista: coisa para rico que gosta de Alta definição. Os "mortais" até podem adquirir um televisor a partir R$ 2 mil e ainda comprar um conversor a partir de R$ 500 para ver a imagem do século. Mas são poucos...Não é à toa que os estoques dos fabricantes não páram de crescer. Afinal quem liga e pode ter a imagem de alta definição aqui e agora?

Um consultor da área, que entrevistei para uma reportagem encomendada pela Gazeta Mercantil a qual não será publicada nem paga porque foi cancelada um dia antes da entrega do frila, responde que "só não vê benefícios na alta definição quem ainda não a conhece". Não tenho dúvida de que ele esteja certo, porém, essa é uma opinião válida apenas para determinados gostos e hábitos de determinados grupos de brasileiros.

Eu conheço a alta definição ( de várias coletivas de imprensa) e não tenho nenhum interesse de gastar dinheiro para ver algumas imagens mais definidas do que vejo agora. E confesso que também não estou disposta a ver TV no meu celular agora. Mas há algo que me atrai muito quando ouço as fontes da TV digital e ela se chama interatividade. Mas afinal, o que é isso?

Você já leu muito de que a tal interatividade é você comprar o carro perfeito ou o vestido maravilhoso que eles ( atores e atrizes) estão usando. Sim, essa é a interatividade da publicidade que aliada ao setor financeiro vão fazer a festa na hora de anunciar na TV com o potencial da web. Mas quero saber do mundo em que vivo agora: internet, autonomia, marginalidade, contéudo, blogs, falta de acesso ao mundo dos GRANDES ( leia-se organizações globais, política pública, cadeia corporativa da mídia). Como será a interatividade da TV digital?

Eu não descobri a resposta. Mas, enfim, entendi o óbvio:
1-Acesso é o mesmo: as Teles ( Telefônica/TVA/Vivo, Telemar/Brasil Telecom/TIM, GVT e Embratel/NET/Claro) vão nos oferecer serviços de internet assim como a gente já paga pela banda larga fixa da vida para ter o acesso à internet da TV digital
E é por meio desse acesso ( que tudo indica que seja PAGO) que nós vamos começar a usar TV com a cultura da web. Mas isso significa que os "amadores" da imagem terão chance de aparecer na TV?

2- Tudo depende da "reputação" que esse grupo de pessoas que fazem vídeos na garagem terão na rede dos telespectadores. Pelo menos, essa foi a idéia que o tal consultor me passou durante a entrevista. Ele acredita que aquelas produções feitas por quem ama cinema ou vídeo passarão a ter as mesmas chances que hoje os escritores/blogueiros têm na internet. Só que na velha telinha. Mas, então, haverá busca por conteúdo pelo telespectador conforme interesse pessoal dele?

3-Ele acredita que esse comportamento pode ser viável sim naqueles canais de TV destinados justamente para isso. Lembram dos canais destinados à sociedade do século passado daquela política de inclusão digital? Pois é, eles podem ter a cultura democrática da web, ou não. Afinal quem se importa com legislação, política de inclusão digital, padrão, tecnologia......?????

Eu adoraria ter a chance de ver produções feitas por brasileiros malucos que passam fome para tentar vencer a máfia televisiva. E, você, arriscaria ser um produtor de vídeo falando sobre a realidade do seu bairro ou da sua profissão? Sim, segundo esse consultor e os dois entrevistados para a tal reportagem que a Gazeta Mercantil não publicará, esse cenário é uma realidade possível a partir da interatividade da TV digital. Mas... como no Brasil nunca temos memória, ela dependerá também de novo do jogo dos interesses.

Hoje quem decide a programação de tudo são as emissoras, inclusive as pagas. A programação determinada pela NET, por exemplo, já pode ser personalizada pelo usuário que paga pela alta definição do decodificador de R$ 799,00 da NET. O assinante da NET pode personalizar sua TV por meio de um portal extremamente fácil de ser manuseado. A usabilidade da TV da NET com controle remoto é admirável. Eu fiquei apaixonada quando percebi o quanto os arquitetos de informação estão avançados para facilitarem nossa navegação na TV. Uma das funcionalidades que deve tornar-se realidade para quem tem TV paga é colocar seu álbum de fotos no menu da TV. Imagine você organizando suas fotos na telona da TV para passar para seus amigos na sala.

Mas quem realmente já tem portas abertas para abusar da interatividade são as agências de publicidade. São elas quem vão criar coisas para estimular você a fazer aquilo que elas venderem para os clientes dela. Outro que já tem porta aberta nessa brincadeira é o governo, que já anuncia aos quatro cantos do mundo que, no futuro, você pode "enfrentar" a burocracia dos serviços online prestados pelas entidades e-gov na TV. Parece que BANCOS também vão ter acesso livre para nos oferecer crédito pra gente gastar nas publicidades interativas e, pra não ficar feio, os BANCOS tão bonzinhos podem nos mostrar o saldo em vermelho, o extrato, AS TAXAS COBRADAS, enfim essas coisas que os bancos fazem especialmente para nós.

Agora, imagine se os pobres mortais tiverem chance de invadir a produção da TV, e tudo que acontece agora na internet passa a acontecer na telona da sua sala. E, aí, já sabe em qual tela ficará mais tempo?

PS: tive a honra de ser citada no post de um dos caras que considero mais vanguarda no Brasil, Silvio Meira que foi um dos entrevistados para a reportagem encomendada pela Gazeta Mercantil, que não foi publicada no Caderno de Inovação neste mês de junho porque eu preferi não escrever a reportagem já que não houve pagamento realizado pela editora de outros frilas, conforme prometido pela empresa.

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