Terça-feira, Junho 12

Peãozada do jornalismo

Quem viu Ted Nelson ontem na entrevista concedida ao Roda Viva teve a impressão de que o cara está vendo um futuro que os pobres mortais como nós podem ser cegos para isso, ou não?
Eu tenho minhas dúvidas de que tudo precisa ser mudado, mas quando ouço alguém falando se tudo muda e se transforma porque tem certas coisas que continuarão sempre as mesmas...É pode ser que a web tenha uma segunda opção como ele cita que todos precisam ter um segundo idioma. No mínimo, ele nos faz pensar e, por isso, resolvi citá-lo para reforçar a proporção que André de Abreu traz na segunda resposta da Entrevista concedida ao Freelancer -O Profissional que Rala.
Afinal, você está, ou não, entre os 90% dos técnicos.

2- A formação do jornalista sempre foi uma questão polêmica. Há regras para determinar as disciplinas que devem ser inseridas no curso de jornalismo? Porque há universidades que não ministram cursos de economia e português no jornalismo? O que considera primordial entre as disciplinas que nem sempre estão na programação do curso dejornalismo?
André de Abreu
- Eu sou um pouco radical nesse assunto. Primeiro, apesar de o mercado demandar jornalistas com o perfil de gestores de informação, 99% dos cursos de jornalismo ainda formam profissionais clássicos, que poderão pleitear vagas na meia dúzia de empresas de comunicação existentes hoje em dia. Isso faz com que o profissional recém-formado seja visto como mão-de-obra barata, já que, como ele, milhões de profissionais só estão qualificados para trabalhar nessas poucas empresas (entenda-se rádios, TVs, jornais, sites e revistas).

Uma boa parcela da "culpa" disso está nas faculdades. Afora algumas disciplinas ligadas ao jornalismo digital, a maioria dos currículos das universidades ainda é o mesmo de 50 anos atrás, sendo que o mercado e a sociedade mudaram muito neste período. Isso faz com que o aluno saia do curso despreparado ou sem o conhecimento de todo um mercado, muito maior que o tradicional, que possui ótimas vagas e condições de trabalhos hoje inexistentes na grande imprensa e cujasvagas ficam meses sem preenchimento, justamente pela ausência de profissionais qualificados para elas.

Também sou radical na questão de disciplinas técnicas. Por mim, elas inexistiram ou seriam minimizadas em um currículo universitário. A parte técnica o aluno pode aprender em cursos ou no próprio mercado de trabalho. Já a parte "pensar", ele não tem outro lugar para aprender a não ser na universidade. O ritmo frenético do trabalho não permite mais esse acesso à reflexão sobre a profissão. Por isso eu brinco, que a maioria dos cursos hoje formam a "peãozada do jornalismo", pois são profissionais extremamente técnicos. E não técnicos num software ou algo do gênero, e sim na técnica de escrever, e só.

As grades dos cursos de hoje, tirando aqueles alunos que "sacam" e conseguem se virar por fora, não formam futuros editores, gestores ou estrategistas. Em suma, os currículos das universidades formam 90% de profissionais que serão comandados por 10% que acordam para a realidade do mercado e traçam um caminho próprio no jornalismo, sendo que o mercado não absorve hoje esse 90% de jornalistas de conhecimento estreito.

Respondendo diretamente à sua pergunta. Realmente não há uma regra que todas as universidades devem seguir, elas têm autonomia de montar suas grades seguindo apenas alguns pré-requisitos básicos do MEC. E espero que matérias como economia e português (cujo ensino deveria ser papel dos ensinos básicos e médio) venham juntos de disciplinas como arquitetura de informação, design informacional, gestão estratégica de empresa comunicacionais, empreendedorismo, planejamento noticioso multimidiático e por aí vai.

São assuntos que exigem um jornalista mais reflexivo do que técnico e que hoje em dia só poucos têm acesso através de cursos extra-curriculares como o Master em Jornalismo.

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