Sexta-feira, Julho 28

Cultura, surpresa e jornalismo!

Jorge Henrique Bastos

Surpresa. Essa é a palavra-chave para definir como surgiu a entrevista publicada hoje no Freelancer - O Profissional que Rala...


Meses atrás recebi um email do Jorge, elogiando o "trabalho" feito neste blog. Fiquei super lisonjeada e só agora tive tempo de convidá-lo para uma entrevista. Jorge Henrique Bastos é um jornalista cultural, crítico literário, poeta e tradutor. Essas atribuições, no entanto, ganham ainda mais representatividade com a informação de que esse profissional nasceu em Belém do Pará.


Mas não pára por aí. Do Belém do Pará, Jorge se tornou um jornalista brasileiro em Portugal. E detalhe: num dos jornais mais importantes daquele País.


Estudou Literatura Brasileira na UFPA, mas abandonou o curso ao fim do segundo ano. Veio para São Paulo, no início da década de 80, onde trabalhou na editora Martins Fontes. Nas terras lusitanas, Jorge publicou muita entrevista, crítica e reportagens. Veja algumas delas neste link aqui.

  • 1 - Um jornalista brasileiro em Portugal. Um jornalista brasileiro -- que nasceu no Belém do Pará, especializado em Cultura -- em Portugal. Qual é a diferença de luta profissional entre esses perfis? É mais vantajoso ser especializado em Cultura para atuar em Portugal, ou não?

Acredito que a diferença é mínima se o jornalista for, na essência, um bom profissional. Mas a minha paixão pela literatura levou-me de certa forma a isso. Atuei mais na área da Cultura porque o primeiro convite que recebi partiu do extinto Suplemento Literário do Diário de Lisboa, um vespertino português que desapareceu no início da década de 90, mas que fez história naquele país. Escreveram lá desde Fernando Pessoa a Saramago.

O jornal tinha mais de setenta anos de existência. Como meus primeiros textos publicados em Portugal foram sobre literatura brasileira, e não só, acabei por dedicar-me à Cultura. Depois é necessário ver que naquela época, pouco se falava sobre o Brasil nos suplementos culturais portugueses, os nomes recorrentes eram os mesmos, com Jorge Amado dominando a mídia. Mas, também, naquela época publicava-se pouca literatura brasileira, ao contrário do que aconteceu ao longo da década de 90 e atualmente. Colaborei depois no semanário Independente durante quase um ano, e em 1994 passei para o Expressso, primeiro como freelancer, por 5 anos, e nos últimos 5 já como jornalista do quadro e um dos coordenadores do suplemento de cultura daquele semanário, que hoje se intitula "Actual".



  • 2 - O que levou o crítico literário brasileiro à Portugal?

Um acaso familiar que acabou por catapultar-me para Lisboa, unindo o amor real e o amor pela língua e os autores portugueses.

  • 3 - No Brasil, você colaborou na revista CULT, considerada ícone no segmento editorial. Como surgiu a oportunidade de colaboração?

A colaboração com a CULT surgiu no período em que o Manuel Costa Pinto capitaneou os destinos desta revista. Ele convidou-me para organizar um dossiê sobre literatura portuguesa, aproveitando como gancho o lançamento da primeira antologia daquele que é considerado o mais importante poeta português vivo, Herberto Helder.

O livro "O Corpo O Luxo A Obra" acabara de sair pela Iluminuras, fui responsável pela seleção e a apresentação da obra. Aliás esse lançamento foi amplamente saudado na Folha, Estadão, Bravo, Globo e Jb, sempre com destaque. Por outro lado a antologia do Alexei Bueno "Poesia Portuguesa do séxulo XX - um panorama (ed. Lacerda), fora lançada também.
Estávamos em pleno 500 anos e o Manuel achou a melhor forma para falar sobre a literatura portuguesa. Creio que o trabalho ficou ótimo, foram quase 20 páginas só sobre a literatura portuguesa.

  • 4 - Acredita que em áreas especializadas como Cultura há mais chances de entrar, ou colaborar/frilar, numa redação sem a indicação do QI?

Acho que torna-se um pouco mais difícil do que noutras áreas, embora tenha presenciado e "editado" muitas asneiras escritas por pseudo-críticos e/ou jornalistas culturais. E hoje em dia existe uma muleta excesivamente utilizada que é o "são Google". Muitas vezes os jornalistas se amparam nele com devoção extrema e cega...logo, as asneiras se repetem Aí é importante que o jornalista seja honesto, pesquise, estude, confirme tudo.

  • 5 - Todo jornalista gosta de livros. Acredito também que todo jornalista lê livros. Mas poucos têm o hábito de leitura. Diante disso, questiono há muitos jornalistas interessados pela área de Cultura, ou não? Entre os interessados, a maioria tem o hábito de leitura e um histórico que lhe permite ser jornalista nesse segmento?

Sou daqueles que acredita que um jornalista não será, de fato, um bom profissional se não tiver uma cultura em transformação contínua. Você tem de saber do que fala, a leitura é que preencherá todas as lacunas. Nunca escrevi sobre um autor que não conhecesse alguma obra, depois era muita pesquisa, releitura.

Mas a realidade é parecida em todo o mundo. Existem aqueles que driblam bem as dificuldades, e outros que no primeiro parágrafo, através do estilo, da vivacidade, do conhecimento, demonstram que conhecem o assunto com profundidade. No caso do Brasil naõ podemos esquecer que hoje, quase todos os jornais do país tem páginas dedicadas à cultura, e só imagino a dificuldade que é para estes nossos colegas conseguirem permanecer com o espaço, produzir matérias e aprofundá-las. De Belém do Pará à Paraíba, há colegas nossos que todos os dias lutam para manter aquele espaço, e o custo nem sempre é bem visto.

Mas voltando um pouco atrás, sobre se todo jornalista gosta de livros, aproveito para contar uma história que ocorreu comigo na redação do Expresso. Num fechamento de edição, aí por volta das dez da noite, entra uma jornalista do nacional de lá, toda cheia de pressa, mostrando-se muito atarefada, falou comigo:"Colega preciso de um favor você sabe quem é Manuel Alegre".

Olhei para um amigo que estava sentado à minha frente, sorri sutilmente olhei para a minha colega de olhos verdes e cabelos loiros cacheados e disse-lhe:"Bom, qual das duas faces do senhor você quer conhecer". Ela olhou-me sem graça e perguntou-me porquê. Disse-lhe então que se fosse o poeta, Manuel Alegre era, de certa maneira, um dos autores mais importantes da literatura portuguesa do século XX, estivera exilado nos anos 60 na Argélia, e alguns dos seus poemas foram cantados pela Amália, a fadista portuguesa", que se tornaram clássicos da música portuguesa. A minha colega jornalista olhou-me e então disse "E o outro?".

Bem, o outro a seguir ao 25 de Abril, a Revolução dos Cravos, tornou-se deputado e hoje é simplesmente o presidente da assembléia". Já sem sorriso, e depois de ter anotado quase tudo num papelzinho, saiu sem dizer boa noite. Hoje, ela é jornalista da RTP-radio televisão portuguesa, no telejornal mais visto em Portugal...

SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA SERÁ PUBLICADA APÓS OS COMENTÁRIOS FEITOS POR VOCÊ, LEITORES DO FREELANCER!!!!

Veja segunda parte da entrevista neste link aqui

3 comentários:

Samyh Hanim disse...

Não sei nem como começar!Ceila, eu sou apaixonado(pra dizer a verdade acho que é um amor inigualável) pela literatura e pelo trabalho de crítica literária assim como o jornalismo cultural, desejo muito me especializar nesse campo do jornalismo, adorei essa entrevista, fiquei atordoado com o prazer de saber um pouco sobre o jornalismo cultural, gostaria de "IMPLORAR" a vc duas coisas!
1ªtermine essa entrevista,é muita maldade deixar-me assim aflito por saber mais!(risos)
2ª Gostaria de saber se vc não pode apresentar meu blog a ele, seria um prazer saber o que ele pensa sobre meus textos(muito iniciantes, mas que esperam ajuda de pessoas como ele, que trabalha na área que mais me interesso).Bjos e muito obrigado, foi muito bom ver o prestigio de um jornalista cultural, e gostaria de saber as características necessarias a um jornalista para iniciar-se nessa área.

Ceila Santos disse...

Caro Samyh, que bom que a entrevista tenha representado tudo isso pra ti. fico feliz em atingir esse objetivo. espero que a segunda parte já tenha sido lida por vc. E também encaminhei seu comentário para o Jorge e espero que ele lhe dê algum retorno!
Boa sorte!

sub rosa disse...

Olá Ceila, boa tarde:
Por Deus, minha querida que coisa quererá você dizer com esta frase na apresentação do Jorge Henrique, meu grande amigo:
"Essas atribuições, no entanto, ganham ainda mais representatividade com a informação de que esse profissional nasceu em Belém do Pará."
Eu também nasci em Belém e sou doutiora em Filosofia e faço crítica literária, não tão bem quanto o JHB, e será que por ter nascido em Belém do Pará, isso tem *mais representatividade*.
Se a minha fraca inteligência socorreu - me na compreensão de suas palavras, entâo, sinceramente... nem sei o que dizer.
E pensar que cheguei aqui, por indicação de um amigo que também nasceu em belém do Pará! tsc.. tsc.. tsc...